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Só minha

 Minha vida é só minha, casa bagunçada, lembranças empoeiradas, mas tire o sapato pra entrar.  Apesar de tudo, te sirvo um café com  uma boa prosa,  e quem sabe você queira ficar. (22/10/17)

Barco à vera

 A vida parece barco onde eu guio sem prumo. No mar todo dia me jogo e renasço, retomo e revivo,  ainda sem rumo.  O casco do barco furado, arrumo,  aprumo e navego. Viajo,  me guio,  me arrumo, é muita bagagem que levo. A vida como barco se lança, balança desanda. (23/01/18) No barco como vida, se cansa, ancora. A vida como barco, tenta, não consegue, naufraga. 

Liberdade ainda que tardia

Despontou na manhã, com a marca no corpo Estava decretado, ela nasceu pra servir. De criança Brincava com baldes e vassouras, Lustrava móveis e pisos, Coisa bem séria que fazia. "Adolesceu" e fugiu, Ainda aos 15 anos, Foi pega, apanhou e dormiu. Acordou e estava na mesma cozinha da casa grande. Continuou a alimentar sua vontade de sair. Tentou várias vezes, Foi pega, apanhou e dormiu. E a sequência foi essa até os 20. Um dia, nova tentativa. Olhou para trás e não viu nada. Olhou para frente e viu um novo mundo. Se libertou! Livrou-se da marca. da cozinha, Estava livre fisicamente. E mentalmente. Seus fantasmas assombravam ainda, e assim foi indo, Até desistiram e a deixaram em paz! A liberdade agora era completa! Ada Kiau

Turvo

O dia amanhece turvo Minha boca tem gosto de coisas passadas Me levanto cambaleando e grito jorrando lágrima. Não sei em que ponto me perdi de mim mesmo Onde deixei minha lealdade ao puro Hoje caminho a esmo Como quem vai sem rumo. O dia amanheceu luto, mas ainda assim decidi me levantar Pra combater meus fantasmas Sarar minhas dores E tentar continuar De hoje em diante decido, Contemplar a boca da vida Aberta em minha direção Que ela me engula sem dó E eu me transborde no final! Ada Kiau                                          

Imaginação

Uma casa com quintal, um horta de orgânicos, uma rede na varanda. A sala de piso frio, com um tapete no meio, e almofadas para se deitar. A cozinha com fogão a lenha, e café bem quente no bule, Nós sentados a beira do fogo. O quarto com cortina de linho, a cama desarrumada, O sol entrando para purificar. Maldita seja minha imaginação, que me deixa sair por esses caminhos, e não se importa em me dizer a verdade depois. Ada Kiau

Café amargo

A manhã sobressaiu em meio à correria das pessoas que madrugavam.  Para onde iam, com suas cabeças baixas, seu ar de segurança dentro do carro?  Ela, acordou e abriu a janela e por um momento pôde ver positividade naquele instante.  Tomou um banho, pôs-se dentro de roupas confortáveis, pois o seu trabalho não exigia tanta formalidade.  Desceu as escadas do prédio, cumprimentou o porteiro e saiu. Ali se iniciava de verdade sua jornada no dia.  O café era algo que ela não abria mão e já há muito tempo escolhera um cantinho para sentar todas as manhãs e degustar do melhor elixir inventado pelo homem. No Petit Déjeuner, ela escolheu a mesma mesa, de frente para a rua. Gostava de ver as pessoas e penetrar anonimamente na vida delas. De repente, a hora mais importante do dia foi interrompida com um telefonema. Era ele do outro lado, vociferando palavras que ofendiam e cortavam lentamente o coração dela. Gerard não aceitava o término do relacionamento e cont...

Colo

O dia amanheceu como todos os dias mas o meu corpo procurou por colo. Pediu para se deitar em posição fetal, e encostar a cabeça no colo macio da mulher, Deusa dos meus dias. A vontade era de permanecer ali, quieta até que a minha respiração fundisse com o tempo que fazia lá fora. Meu corpo pediu colo e eu não queria mais passar um minuto sequer longe dela. Do carinho, dos olhares que conversavam sem palavras, das comidas especiais que não tinham nada demais, mas foram feitas pela mao dela. Hoje eu pedi para que o tempo voltasse e não precisasse crescer. Nunca! Pedi para que ela me gritasse na rua, me mandando entrar pra casa ou para que ela fosse nas reuniões de pais do meu ensino fundamental. Era só o que eu queria hoje. Mas a gente cresce e tem que enfrentar o mundo  com as nossas próprias decisões e convicções. Usar das nossas próprias armas. A vida é dura às vezes e eu só queria colo por hoje. Ada Kiau

Tropeços

Tropecei hoje com você no meu baú de coisas quase abandonadas, ou de coisas pra serem quase esquecidas. Mas tropeço em você com frequência. Dentro do meu armário, na minha estante, no painel de fotos que pendurei na porta. No meu travesseiro e colchão. Na minha xícara de café e no meu dia nublado. Na minha caneca-porta-caneta e na cadeira do meu quarto. Tropeço em você na padaria, na loja de roupas e até no ônibus. O que me preocupa é o meu tropeço dentro de mim. Tropeço em você dentro, profundo, no coração.  É esse!  Esse tropeço que me preocupa.  Ada Kiau (ouvindo Rivers and Roads da banda The Head And The Heart)

Não é pra mudar

Ela não quer que você ao acordar, cedo, cedo, mande uma mensagem de amor.  Ela não deseja que você saia da aula mais cedo para ir encontrá-la na esquina da casa dela. Ela não pensa que você deveria se mudar pra mais perto, só para que possam passar mais horas juntos. Ela não quer que você deixe seus amigos, seus hobbies e seus bichos para levá-la pra jantar. Ela não vai te pedir p ara ficar, quando você tem que estudar pra'quela prova super difícil. Ela não vai te pedir pra pagar toda a conta e nem levá-la até a porta de casa. Ela não quer que você mude nem um pouquinho pra satisfazê-la. Ela só pede que você entenda que não é porque ela não te ama, é justamente ao contrário. É porque o amor é demais. É porque ela ama você assim, do jeito que você é. Sem curvas, nem desvios. Ela quer que você entenda de uma vez por todas que foi por esse VOCÊ que ela se apaixonou. Ada Kiau

Qualquer coisa II

Eu pensava ser uma pessoa diferente, decidida, independente. Mas meu erro foi acreditar nisso. Eu pensava ser boa em tanta coisa que não percebi o quão ruim eu era. Pensei ser independente, sempre otimista mas me vi mergulhada numa necessidade de "precisar" de alguém para me empurrar, dar conselhos ou até mesmo emprestar uns trocados. Pensava ser esperta, nunca me apaixonaria, mas também não maltrataria ninguém. Apenas deixava pra lá. No fim me apaixonei por todos os caras da minha vida, um por um. Não os maltratei, acho que não, mas quem saiu mal de todas as histórias fui eu. Sai sozinha. Pensei que ser sozinha era bom. Ainda acho que seja, mas o mundo pensa que não. Ninguém pode ser sozinho. Pensava ser uma mulher à frente do meu tempo, mas talvez eu tivesse ultrapassando os limites e desafiando o tempo. E ele jamais gostou de ser desafiado. Pensei ser forte, mas no mínimo sinal de dor, chorei. Pensava existir apenas a dor física, essa era impossível não sentir, mas descobr...

Carnaval

É Carnaval! E o que sobrou do amor? Sobrou a cama vazia, A frieza do dia, a lembrança do passado. Será que ele existe nesta época? Ah, o Carnaval! E o amor? Ele não sumiu, ele se enfeitou de plumas e paetês, ele cresceu, ficou adulto e mais quente, O amor ficou fogoso. Agora só quer saber de folia. e quando o carnaval acabar, ele hiberna novamente. Ada Kiau
Você já ocupou a parte que te cabe em mim.  Eu não tenho mais espaço e não quero ter,  pra que você não pense que o resto é seu. Você ocupou a parte que te cabe, bagunçou todos os cômodos,  destruiu todas as possibilidades alheias,  e me deixou confusa. Você ocupou a parte que te cabe, e o que restou não faz mais sentido. Fazia até pouco tempo. Dos inquilinos que passaram, não se fixaram, não se comoveram, não me gostaram. Você ocupou a parte que te cabe, e não quer mais sair. E eu corro pela rua, louca, abrindo os pulmões e tentando fechar o coração. Meu coração não quer fechar. Eu não tenho mais espaço, Pra você eu não quero ter. A felicidade é exacerbada, mas é instantânea. E depois, você vai embora e tranca a porta. E some, não manda carta, só chegam as contas que se acumulam. Você ocupou a parte que te cabe, e sua ocupação foi instantânea também. Você trancou a porta e perdeu a chave. Sumiu. Ada Kiau
Ela passou a vida inteira se fazendo forte. Inabalável. Não sentia como os outros, achava uma bobeira sentir algo. Lia e relia notícias sobre amor ou paixão, sem lhe causar nenhuma coisa que pudesse lembrar. Olhava todos os dias pela janela, e aquelas pessoas que passavam abraçadas, para ela eram uma só pessoa, insignificante. Ela foi traída por alguém que a conhecia bem: ela mesma. Hoje anda nas nuvens e sente... Ela sente tudo aquilo que mais temeu a vida inteira. Mas o pior de tudo é que ela está sozinha, Sentir sozinha, ela diz, é uma coisa ruim. É algo que corroe, sufoca, consome, e que ela espera que desapareça, antes que seja tarde e que ela queira de verdade viver tudo isso. Ada Kiau
"A vida caminha bêbada pela rua, as mãos estão trêmulas de desejo ou de velhice, Ela encharcou o coração de angústias, dúvidas e razão. Coração não se move com razão,  ele independe. A vida é dependente de emoções que fazem mal, ás vezes. A vida gosta de sofrer e hoje já não reclama mais." Ada Kiau
De longe vejo vir o turbilhão de coisas. Emboladas, empoeiradas, difíceis de decifrar. Quando batem em mim, me consomem feito cigarro aceso, lentamente. De dentro pra fora, exponho meus pelos de gato, engasgados com minhas meias verdades. De fora pra dentro absorvo todo o odor fétido das mentiras do mundo, e das minhas. Tenho decidido repetidas vezes ser normal, estar bem e feliz. Repetidas vezes tem funcionado também. Tenho dito a mim mesmo e ás pessoas que o mundo é bem assim, nos engole mesmo, nos deglute e vomita nossos ossos sem nenhum arrependimento. Eu demorei a aceitar isso, e preguei pra muitos que aceitassem. É, a gente é assim mesmo, de mudanças.  Ada Kiau ^^

Confusão Poética

Insisto em carregar fardos mais pesados do que meu corpo lânguido aguenta. Carrego-os, porque tomo para mim a responsabilidade deles.  Meus caminhos tortuosos me levam a destinos que já sei em que se configuram. Não consigo ter paz e destreza para resolver certas equações que a vida me lança.  Quero ter coragem, tenho onde buscá-la, mas algo me prende, amarra-me as mãos e ata-me a boca. Meus olhos estão turvos e as lágrimas se desesperam com vontade de cair. Meu dilema é um paradoxo ou um pleonasmo ou não é nada... É apenas um drama a que me recorro todos os dias para continuar vivendo. Ada Kiau

Poeira

As coisas a minha volta estão empoeiradas e velhas.  Móveis e pessoas com ar blasé. Tristes e inferiores. Na verdade, tudo não passa de engano. O erro está em meus olhos, não nas coisas. Ada Kiau

Noturno

Andar no escuro, sentindo o bafo da noite soprar em seus cabelos, era algo que ela sempre gostou. Após a caminhada noturna, abriu a porta de casa, tirou os sapatos e se jogou no sofá, como se jogasse nos braços dele. Lembrou que ele não estava mais ali e sentiu falta. Se abraçou á almofada e ali varou a noite chorando por dentro, pois sabia que a culpa da ausência era dela. Os dias que se seguiram foram cinzas e lamentáveis. Ada Kiau
"Hoje eu decidi não recuar, cuidar de mim, abstrair. Hoje eu decidi ser feliz, tomar atitude, ser diferente. Hoje me lembrei que tenho o controle da minha vida, logo mudo o canal a hora que eu quiser.  Talvez eu caia num imenso tédio e espero que venham mãos, braços e abraços pra me tirar dele. Viver cansa ás vezes, dói quase sempre. Mas, quem disse que eu me importo. Que eu me machuque então, que me esgote as forças, que eu siga sempre!" Ada Kiau (baboseira de madrugada!)

Culpa

Eu saio todos os dias com a cabeça a mil já logo de manhã, carregada de incertezas e a alma limpa de culpas. Mas eu me engano, me iludo, eu sou culpada. Sou culpada pelas coisas que não digo, pelas coisas que não faço. Sou culpada pelas coisas que guardo e pelas coisas que jogo fora. Minha culpa recai pelos amigos que escolho e pelas pessoas que ignoro. Pelas piadas de mal gosto e pelas engraçadas; pelo riso frouxo e pelo riso contido. Sou culpada também por falar mal dos outros e por defender quem eu gosto. Tenho culpa pelas pessoas que gostam de mim, a ponto de se declararem mas também tenho culpa por aquelas que me odeiam. Sou culpada por não gostar de verdade ou por fingir que não gosto (mais por isso), por fingir que não me preocupo, por fingir que não quero, que não me importo. Tenho culpa por fingir que não sou, sendo!