A noite pede um café, bem quente, amargo
ou um vinho, mas ainda é quarta-feira.
Para ela é impossível ver algo além da janela,
a neblina cobre tudo e abraça quem passa na rua.
As pessoas na sala conversam, mas ela não sabe o assunto porque deixou muito tempo passar sem escrever.
Dentro de uma blusa laranja, pés descalços e óculos na ponta do nariz, pensa no que pode ser interessante.
Disseram-lhe que anda meio sentimental, chorando atoa e ela reflete o porque.
Sua vida, nos últimos meses, recebeu informação demais.
Antes era apenas o derrame cerebral.
Sentiu pena e ajudou como pode no caso.
Mas a história tomou um rumo inimaginável para qualquer pessoa da família,
a última notícia abriu um buraco entre as circunstâncias e a indignação misturada com a impotência assolou á todos.
Ninguém mais disse uma palavra; os fortes guardaram a informação não sei onde, os que se acham justos, quiseram punição, a menina, jovem ainda na face quer esquecer tudo, por não aceitar.
Ela acha que peca, mas a honra, a vida de uma pessoa, seja lá quem ela for, deve permanecer inviolável.
Ada Kiau
O dia amanheceu como todos os dias mas o meu corpo procurou por colo. Pediu para se deitar em posição fetal, e encostar a cabeça no colo macio da mulher, Deusa dos meus dias. A vontade era de permanecer ali, quieta até que a minha respiração fundisse com o tempo que fazia lá fora. Meu corpo pediu colo e eu não queria mais passar um minuto sequer longe dela. Do carinho, dos olhares que conversavam sem palavras, das comidas especiais que não tinham nada demais, mas foram feitas pela mao dela. Hoje eu pedi para que o tempo voltasse e não precisasse crescer. Nunca! Pedi para que ela me gritasse na rua, me mandando entrar pra casa ou para que ela fosse nas reuniões de pais do meu ensino fundamental. Era só o que eu queria hoje. Mas a gente cresce e tem que enfrentar o mundo com as nossas próprias decisões e convicções. Usar das nossas próprias armas. A vida é dura às vezes e eu só queria colo por hoje. Ada Kiau
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