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Qualquer coisa II

Eu pensava ser uma pessoa diferente, decidida, independente. Mas meu erro foi acreditar nisso. Eu pensava ser boa em tanta coisa que não percebi o quão ruim eu era. Pensei ser independente, sempre otimista mas me vi mergulhada numa necessidade de "precisar" de alguém para me empurrar, dar conselhos ou até mesmo emprestar uns trocados. Pensava ser esperta, nunca me apaixonaria, mas também não maltrataria ninguém. Apenas deixava pra lá. No fim me apaixonei por todos os caras da minha vida, um por um. Não os maltratei, acho que não, mas quem saiu mal de todas as histórias fui eu. Sai sozinha. Pensei que ser sozinha era bom. Ainda acho que seja, mas o mundo pensa que não. Ninguém pode ser sozinho. Pensava ser uma mulher à frente do meu tempo, mas talvez eu tivesse ultrapassando os limites e desafiando o tempo. E ele jamais gostou de ser desafiado. Pensei ser forte, mas no mínimo sinal de dor, chorei. Pensava existir apenas a dor física, essa era impossível não sentir, mas descobri a dor da alma. A pior. Que consome dia após dia. Um ponto de dor a cada respiração. E a dor física se anula completamente. Pensei em escrever algo interessante, tocante, mas descobri que não sou tão boa assim com as palavras. Nem sou tão boa assim com as palavras!

Ada Kiau

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Inacabado I

Me alimento dessa carência porque ela acaba me completando de algum modo. Entendo que a gente precisa do físico, do afago, do carinho de um abraço diferente. Deve-se pensar sem culpa, porque o outro não sente, nem vê. Ada Kiau

Colo

O dia amanheceu como todos os dias mas o meu corpo procurou por colo. Pediu para se deitar em posição fetal, e encostar a cabeça no colo macio da mulher, Deusa dos meus dias. A vontade era de permanecer ali, quieta até que a minha respiração fundisse com o tempo que fazia lá fora. Meu corpo pediu colo e eu não queria mais passar um minuto sequer longe dela. Do carinho, dos olhares que conversavam sem palavras, das comidas especiais que não tinham nada demais, mas foram feitas pela mao dela. Hoje eu pedi para que o tempo voltasse e não precisasse crescer. Nunca! Pedi para que ela me gritasse na rua, me mandando entrar pra casa ou para que ela fosse nas reuniões de pais do meu ensino fundamental. Era só o que eu queria hoje. Mas a gente cresce e tem que enfrentar o mundo  com as nossas próprias decisões e convicções. Usar das nossas próprias armas. A vida é dura às vezes e eu só queria colo por hoje. Ada Kiau

Culpa

Eu saio todos os dias com a cabeça a mil já logo de manhã, carregada de incertezas e a alma limpa de culpas. Mas eu me engano, me iludo, eu sou culpada. Sou culpada pelas coisas que não digo, pelas coisas que não faço. Sou culpada pelas coisas que guardo e pelas coisas que jogo fora. Minha culpa recai pelos amigos que escolho e pelas pessoas que ignoro. Pelas piadas de mal gosto e pelas engraçadas; pelo riso frouxo e pelo riso contido. Sou culpada também por falar mal dos outros e por defender quem eu gosto. Tenho culpa pelas pessoas que gostam de mim, a ponto de se declararem mas também tenho culpa por aquelas que me odeiam. Sou culpada por não gostar de verdade ou por fingir que não gosto (mais por isso), por fingir que não me preocupo, por fingir que não quero, que não me importo. Tenho culpa por fingir que não sou, sendo!