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Qualquer coisa II

Eu pensava ser uma pessoa diferente, decidida, independente. Mas meu erro foi acreditar nisso. Eu pensava ser boa em tanta coisa que não percebi o quão ruim eu era. Pensei ser independente, sempre otimista mas me vi mergulhada numa necessidade de "precisar" de alguém para me empurrar, dar conselhos ou até mesmo emprestar uns trocados. Pensava ser esperta, nunca me apaixonaria, mas também não maltrataria ninguém. Apenas deixava pra lá. No fim me apaixonei por todos os caras da minha vida, um por um. Não os maltratei, acho que não, mas quem saiu mal de todas as histórias fui eu. Sai sozinha. Pensei que ser sozinha era bom. Ainda acho que seja, mas o mundo pensa que não. Ninguém pode ser sozinho. Pensava ser uma mulher à frente do meu tempo, mas talvez eu tivesse ultrapassando os limites e desafiando o tempo. E ele jamais gostou de ser desafiado. Pensei ser forte, mas no mínimo sinal de dor, chorei. Pensava existir apenas a dor física, essa era impossível não sentir, mas descobri a dor da alma. A pior. Que consome dia após dia. Um ponto de dor a cada respiração. E a dor física se anula completamente. Pensei em escrever algo interessante, tocante, mas descobri que não sou tão boa assim com as palavras. Nem sou tão boa assim com as palavras!

Ada Kiau

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"Findo a noite como quem fecha um livro, como quem tranca uma porta e joga fora a chave, como quem apaga a fogueira que lhe aquece. Findo a noite como quem corta uma veia principal, como quem ama alguém que não existe, como quem não existe. Ponho finda a noite por hoje e amanhã rasgo o céu com as unhas e deixo derreter o dia sobre minha vida." Ada Kiau

Colo

O dia amanheceu como todos os dias mas o meu corpo procurou por colo. Pediu para se deitar em posição fetal, e encostar a cabeça no colo macio da mulher, Deusa dos meus dias. A vontade era de permanecer ali, quieta até que a minha respiração fundisse com o tempo que fazia lá fora. Meu corpo pediu colo e eu não queria mais passar um minuto sequer longe dela. Do carinho, dos olhares que conversavam sem palavras, das comidas especiais que não tinham nada demais, mas foram feitas pela mao dela. Hoje eu pedi para que o tempo voltasse e não precisasse crescer. Nunca! Pedi para que ela me gritasse na rua, me mandando entrar pra casa ou para que ela fosse nas reuniões de pais do meu ensino fundamental. Era só o que eu queria hoje. Mas a gente cresce e tem que enfrentar o mundo  com as nossas próprias decisões e convicções. Usar das nossas próprias armas. A vida é dura às vezes e eu só queria colo por hoje. Ada Kiau

A dança

Um dia ele a convidou para dançar. Pegou a mão dela, deu um beijo e levou-a para o meio do salão. Ali os dois dançaram, ela com a cabeça levemente recostada no ombro dele. Olhos fechados... A dança era tão suave que eles nem perceberam que a música acabara. Ficaram ali dançando por meses esperando que a eternidade os engolisse. Ada Kiau